Oi ESTÁ COBRANDO ATÉ POR CHAMADA NÃO ATENDIDA

Oi ESTÁ COBRANDO ATÉ POR CHAMADA NÃO ATENDIDA
– André L. Soares – 20.12.2008 –
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Atenção: se você é cliente da Oi, verifique minuciosamente sua conta telefônica, pois essa operadora está cobrando até por chamadas não atendidas. E como descobri isso?
Tenho muitos parentes e amigos em Brasília. Para alguns deles ligo com constância. Em novembro, liguei diversas vezes para um mesmo casal de amigos. Em nenhuma dessas oportunidades tive a sorte de ser atendido. Dias depois fiquei sabendo, por meio de outro amigo, que o casal viajando. No entanto, na segunda semana de dezembro, ao receber a conta do meu Oi-fixo, a surpresa: as dez ligações – não atendidas – que fiz para o casal constavam na folha de cobrança ao preço de R$0,23 (vinte e três centavos) cada. Havia, ainda, uma ligação que fiz para o aparelho celular do mesmo casal – também não atendida –, tarifada a R$0,63 (sessenta e três centavos).
Liguei para a Oi. Perguntei se agora estavam tarifando as ligações não completadas. A atendente me garantiu que não. Disse estar abrindo minha conta em seu terminal. Conferiu comigo cada uma das ligações e, anotando os itens dos quais discordei, afirmou ter registrado ocorrência. Segundo ela, poderia mesmo ser ‘erro do sistema’. Garantiu-me que, após análise criteriosa, enviaria nova conta. A prontidão com que fui atendido me fez pensar que não fui o primeiro a reclamar.
Contudo, se foi mesmo erro de sistema, por que foi em favor da operadora? Por que o sistema, ao errar, não deixou de registrar os diversos interurbanos demorados que fiz? Será que esses sistemas são desenvolvidos em Las Vegas, onde a ‘casa’ sempre ganha?

O leitor deve estar pensando: ‘– Esse Lobodomar é um miserável. Fazendo alarde por conta de R$ 2,93’. Mas não se trata disso. Não cabe discutir o montante. Mas sim o fato de ser tarifação indevida. E aí não importa o valor. Até porque, no meu caso foram apenas R$2,93. Mas pode ser que no caso de outras pessoas seja muito mais.
Imagine uma empresa de médio porte: quantas vezes, ao dia, faz ligações que não se completam? E que história é essa de tarifar o serviço não realizado? Ora, grandes empresas têm seus sistemas vistoriados o tempo todo. Já trabalhei na Skol-Brasília, onde o desempenho do sistema era acompanhado em tempo integral. Não creio que em em uma companhia telefônica seja diferente.
Mas coisas desse tipo não são novas. Quem trabalha – ou já trabalhou – em banco sabe que, periodicamente, todas as contas correntes são subtraídas de seus centavos, os quais são desviados para a conta apelidada de ‘vala’. De centavo em centavo, esse mecanismo arrecada milhões. E quem sabe dizer o que é feito disso?
O que sei é que grandes empresas fazem estatística de tudo. Talvez a Oi tenha descoberto algum valor, provavelmente na casa dos centavos, que, quando cobrado indevidamente o volume de reclamações seja mínimo.
Porém, quantos clientes a Oi possui? Alguém sabe dizer? Quanto lucraria se cobrasse, em média, R$2,00 indevidamente de cada cliente? E mais: ao perceber o erro, a empresa tem a decência de devolver os centavos cobrados indevidamente de cada cliente? Será que devolve apenas de quem reclama, abocanhando o restante?

Pois digo: reclamei na Anatel, que informou não poder fazer nada até que chegasse a nova conta. Hoje, contudo, recebi ligação da Oi afirmando que, de acordo com seu sistema, todas as ligações foram atendidas e que, diante disso, nada mais poderia se feito.
Tudo bem. Essa era mesmo a resposta esperada. Na forma unilateral como é hoje a telefonia, se eles dizem que você consumiu quantia ‘x’, não há como contestar. Mesmo quando se tem plena consciência de estar certo.
Dessa forma fica fácil comprar a Telecom. Aliás, por esses métodos inescrupulosos, a Oi poderá, no curto prazo, comprar até a Shell. Tudo, obviamente, com o sacrifício do consumidor.
Finalizo essa postagem sugerindo, aos amigos internautas que forem clientes da Oi, que verifiquem suas contas telefônicas. Tentem, por favor, identificar valores – possivelmente na casa dos centavos – que apontem cobrança indevida. Não é tão fácil perceber, pois não se pode, quase um mês depois, lembrar de todas as ligações não atendidas. Eu mesmo percebi por acaso.
Quem identificar algo e quiser dar um ‘feedback’, agradeço. Gostaria de saber se sou o único. Porque aí vou me considerar um sortudo: aquele que, entre milhões, o sistema da Oi escolheu para lesar, ainda que minimamente.
No entanto, caso haja mais pessoas subtraídas em seus centavos, aí, quem sabe, poderemos discutir o tema novamente, sob outro ponto de vista: o da má-fé empresarial.
A Oi está se transformando no ‘tubarão’ da telefonia brasileira. E se o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em nada impede as compras e fusões que concorrem para a formação de monopólios (ainda que, por enquanto, somente em nível estadual), quem mais pode fazer? Minha postura, porém, será trocar os serviços da Oi, pelos de outra operadora qualquer, na primeira oportunidade; rezando para não cair em esparrela maior.
Esse é o Brasil. E ainda há quem acredite em responsabilidade social da empresa.
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O ESTADO É O MAIS BRUTAL VIOLADOR DOS DIREITOS HUMANOS

O ESTADO É O MAIS BRUTAL VIOLADOR DOS DIREITOS HUMANOS
– André L. Soares – 08.12.2008
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A primeira vez que fui chamado a dar alguma atenção à Declaração Universal dos Direitos Humanos eu tinha entre dezoito e vinte anos. Foi durante um show de Raul Seixas, realizado em Brasília, ainda nos anos oitenta. Em meio à música ‘Sociedade Alternativa’ nosso ‘Maluco Beleza’ puxou um pergaminho e começou a ler, na íntegra, essa Carta Internacional. Após cada artigo cantava: ‘viva, viva, viva a sociedade alternativa’.
A coisa foi ficando chata. O público candango é impaciente. Das vaias, logo passou a palavrões e, depois, começou a lançar lixo ao palco. ‘Chapado’, Raulzito continuava a leitura. A noite tendia a acabar mal. E acabou mesmo.
Antes que a canção terminasse o ‘batalhão de choque’ havia cercado o local: centenas de homens armados, cães, canhões de água e gás lacrimogêneo. A arena transformou-se em palco de guerra. Quem não correu muito, apanhou bastante e foi preso. Democrática, a polícia distribuiu pancada sem distinção: apanharam homens, mulheres, adolescentes, deficientes; apanhou quem estava tumultuando; e quem não estava, também. Alguns afirmam que houve mortos. O Correio Braziliense não confirmou. Eu não fiquei para testemunhar. Corri o quanto pude e, por sorte, escapei dos ‘home’.
Daquilo tudo tirei uma conclusão: é o Estado, sempre, quem mais fere os direitos humanos. Naquela noite, muita coisa poderia ter sido feita para evitar aquele desfecho. Mas o Estado raramente vai por esse caminho, porque, no Brasil, o Estado nunca esteve comprometido com os direitos humanos.
A Declaração, em seu art. 3, diz que ‘todo o homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal’. O art. 5 assevera que ‘ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante’. Já o art. 9 garante que ‘ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado’.
Mas não é isso que se vê na prática. Além dessas violações comuns em eventos públicos, no Brasil o Estado sempre foi criminoso. Não há outro termo. O auge foi o período da ditadura militar pós-64. Mas não foi a único.
O governo Collor confiscou os ativos financeiros de todo o país, ferindo o art. 17 da Declaração aqui analisada. Essa foi, provavelmente, a segunda maior agressão ao direito de propriedade no século XX, perdendo apenas para o que os nazistas fizeram em relação aos bens dos judeus alemães.
Basta rápida visita à história brasileira dos últimos 50 anos, para elencar alguns absurdos: tortura e assassinato de integrantes da ‘esquerda’ política; expulsão de artistas, ativistas e pensadores que combatiam o regime militar; assassinato dos operários da CSN (Volta Redonda); chacina do ‘Carandiru’; chacina de ‘Eldorado dos Carajás’; fazendas de escravos que ainda hoje existem no Matogrosso, Minas e Goiás (sem que o governo intervenha de modo eficaz); sistema penitenciário desumano, em que o apenado sai mais violento do que era, quando entrou; e por aí vai.
Tudo isso porque o Estado é sempre o maior e mais brutal violador dos Direitos Humanos. O Estado: justamente a instituição que mais deveria garantir tais direitos.
E isso somente acontece porque nós – o povo – permitimos. Não estou falando de revolta armada ou afim. Refiro-me ao avivamento da memória: a não deixar que se esqueçam tais erros. A não permitir, por exemplo, que quem confiscou a propriedade monetária de toda a nação seja reeleito. A não mais consumir produtos e serviços de empresa que pactue com esse tipo de governo.
Nós podemos fazer, sim, resistência pacífica – porém, não menos combativa – contra toda sorte de violações aos direitos humanos no Brasil. Basta combinarmos nossos papéis sociais como eleitores aos de consumidores, que os efeitos não tardam a surgir.
E pode-se ainda estender isso a outros povos. Desde que soube que a Nike paga, em média, salário mensal no valor de míseros US$30,00 a um empregado em sua fábrica na China, onde produz o par de tênis que me vendia por cerca de US$300,00, deixei de consumir tal marca. É uma gota d’água minha ação? Sim. Mas é o que posso fazer, na condição individual. E continuarei a fazer, sempre que puder.
Afinal, se não fizermos nada, a Declaração Universal dos Direitos Humanos continuará sendo ‘letra-morta’; ressuscitada em ‘flashes’ de justiça paliativa (que perdura apenas enquanto a imprensa está por perto), sempre que uma pessoa – física ou jurídica – perceba a oportunidade de tirar proveito da situação.
Hoje, infelizmente, os direitos humanos existem tão-somente como meta a ser alcançada. São, portanto, utópicos. Nosso maior desafio, como construtores da história do terceiro milênio, é fazer com que esses mesmos direitos se consolidem na prática cotidiana.
Este ‘post’ integra a ‘blogagem coletiva’ referente à comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos’, proposta pelo Sam, do blog ‘Fênix ad Eternum’, a quem agradeço por ter convocado a blogosfera a participar de mais essa importante reflexão.
Aos poucos, os internautas brasileiros vão percebendo que blog não serve apenas para se expor cópia dos vídeos manjados do ‘YouTube’.
Feliz com o resultado, parabenizo todos os demais participantes. Grande abraço a todos!
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ADOÇÃO, UM ATO DE NOBREZA

ADOÇÃO, UM ATO DE NOBREZA
– André L. Soares – 14.11.2008 –
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Aderi a essa ‘blogagem’ coletiva denominada ‘ADOÇÃO, UM ATO DE NOBREZA’ – proposta por GEORGIA AEGERTER, do BLOG BLOGAGEM e por DÁCIO JAEGGER, do CHEGA MAIS… –, por entender que a importância do tema. Considerando-se que ‘dar a própria vida em troca da vida do próximo’ – ato maior do cristianismo – não chega a ser algo empolgante; então não restam dúvidas de que a adoção de uma criança é o maior gesto de amor que um ser humano pode realizar.

A adoção, porém, possui uma ambigüidade: ao mesmo tempo em que é um ato de amor, é também um sacrifício. No Brasil, por mais prazer e felicidade que as pessoas possam ter ao desenvolverem o papel social de ‘pais adotivos’, adotar não é algo fácil ou simples – a começar pela burocracia. Em geral, quando alguém decide fazer tudo dentro dos trâmites legais, a adoção esbarra em muita papelada, inúmeras exigências, vigilância rigorosa por parte dos órgãos fiscalizadores.
Embora tudo isso tenha por objetivo proteger as crianças, infelizmente acaba fazendo com que muitos desistam da adoção.
De minha parte, tenho amigos muito próximos que adotaram crianças e que, apesar de todas as dificuldades, somente tiveram vitórias para si e para as crianças adotadas; hoje já todas adultas, formadas e, mais importante: pessoas de bem.
Penso que a sociedade precisa discutir, com mais interesse, a questão da adoção, de modo a encontrar formas mais rápidas e fáceis de promover esse fantástico ato de amor. E, a despeito de qualquer discurso religioso, político ou ideológico, o amor é a ação que acrescenta e transforma o mundo positivamente.
Quero agradecer e parabenizar a GEORGIA AEGERTER e ao DÁCIO JAEGGER por terem a feliz idéia de convocar ‘blogagem’ coletiva de tamanha importância. Também agradeço e felicito a todos os demais participantes por emitirem suas opiniões. Àqueles que praticam a adoção de crianças fica, aqui, meu reconhecimento, respeito e admiração.
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MISÉRIA: POR QUE AINDA EXISTE?

[Foto: Ana Mokarzel]
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MISÉRIA: POR QUE AINDA EXISTE?

– André L. Soares – 10.10.2008 –

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Atualmente, quando se analisa a modernidade tecnológica, há tantas coisas fascinantes, as quais levam a crer que a solução de todos os problemas humanos é apenas questão de tempo. E deveria mesmo ser assim, não fosse a má-vontade latente, comum aos líderes políticos e empresariais.

Antes do século XX, por limitações técnicas, a miséria era condição quase natural à maioria dos seres humanos. A produção de alimentos não tinha como satisfazer a demanda: intempéries, guerras, pouco conhecimento das técnicas de plantio, baixa efetividade dos instrumentos, entre outros fatores, garantiam oferta muito aquém da necessária.

Além disso, existia pouco interesse em gerar grandes estoques de alimentos; seja porque as cidades eram muito distantes umas das outras, numa época de transportes limitados (o que prejudicava o comércio); seja porque a armazenagem e a conservação eram difíceis. Tudo garantindo a quase total inexistência do ‘excedente’; com raras exceções, o consumo estava restrito ao que se gerava localmente.

De modo significativo, esse cenário começou a mudar em fins da Idade Média (com o ‘período das grandes navegações’), quando a tecnologia naval nascida na Escola de Sagres (somada à escravidão e à brutal conquista da América) possibilitou, aos europeus, fartura até então inédita.

Contudo, se a riqueza tinha nova configuração, a miséria também ganhara outra face: à tradicional pobreza rural, juntou-se a miséria urbana. Com a Revolução Industrial, a produção estava maior e diversificada, mas seu custo era elevado e alcançava níveis ainda muito abaixo da demanda.

No século XX, marcado por duas grandes guerras (que levaram a miséria ao extremo), ocorreram duas importantes mudanças: primeiro, a supremacia do Direito sobre as demais atividades; segundo, o vasto e avançado conhecimento tecnológico.

Em algumas nações, o Direito gerou aspectos paternalisas que permitiram a elevação da qualidade de vida de parte da população. Já os avanços tecnológicos afetaram positivamente os transportes, a agricultura e a indústria, especialmente no que tange ao manuseio, armazenamento e conservação dos bens perecíveis.

Por esses e outros fatores, o século XXI se inicia tendo, como principal característica, expressiva expansão da oferta de produtos, com destaque para alimentos, eletrônicos, telecomunicações e automotivos.

Segundo relatório da ONU (2001), a oferta de alimentos chega a ser quase o triplo da demanda, propiciando – em alguns países – formação de grandes estoques e queda dos preços médios. No entanto, persiste a miséria.

Se é verdade que, nos 15 principais países mais industrializados, a classe média cresceu; nas demais nações isso não se verifica. Em sua quase totalidade, África, Ásia, América Central e América do Sul ainda possuem grandes contingentes de famílias que vivem abaixo da linha de pobreza.

Vive ‘abaixo da linha de pobreza’ quem não tem acesso ao consumo básico de alimentos, educação elementar, condições sanitárias mínimas ou serviços de saúde apropriados; e que, no longo prazo, não possui perspectiva de melhorias sociais. Praticamente metade do planeta vive nessas condições.

Ora, mas se existem países cujos cidadãos vivem modernidade sem igual, com casas abarrotadas de eletrônicos, com veículos avançados, adentrando a cultura do luxo; como imaginar que, nesse mesmo mundo, existam ainda bilhões de pessoas cujo único objetivo seja conseguir algum alimento?

Se parte do mundo desenvolve armamentos cada vez mais avançados, envia gigantescos telescópios pelo Cosmo; como pode haver outra parte que sequer tem acesso à água potável?

Somente a má-vontade política e empresarial, endossada pela postura passiva que nós – a maioria – comodamente assumimos, pode explicar isso. Não há argumento lógico para tamanha disparidade socioeconômica.

Que algum percentual de pobreza exista, até se pode entender. O inaceitável, porém, é o nível absurdo a que chegou, bem como o volume de pessoas que atinge, tudo isso com o aval dos países industrializados, que se limitam a ações paliativas de curtíssimo prazo, mas que, de fato, nada fazem para buscar soluções definitivas para a miséria no mundo.

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This post is part of
Blog Action Day 2008

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Este texto integra a proposta do “Blog Action Day 2008”, cujo objetivo é discutir, por meio de ‘blogagem coletiva’, a ‘pobreza’ e a ‘indigência’ no mundo, para que se reflita melhor tais questões. Apresento, ainda, outra abordagem do mesmo tema e para o mesmo propósito no blog ‘Gritos Verticais’, na forma de poema.
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DIGA, ESPELHO MEU: EXISTE SERVIÇO DE TELEMARKETING MAIS CHATO QUE O DO BRADESCO?

DIGA, ESPELHO MEU: EXISTE SERVIÇO DE TELEMARKETING MAIS CHATO QUE O DO BRADESCO?

– André L. Soares – 25.08.2008 –
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Hoje abordarei um problema que, possivelmente, seja também o de muitas outras pessoas. Não! Não é a rubéola. Trata-se do impertinente serviço de telemarketing do BRADESCO, que, não satisfeito em poluir nossas vidas com propagandas veiculadas na televisão – aberta e por assinatura –, nos principais jornais e revistas, nos ‘outdoors’ e cinemas, resolveu, ainda, ‘adentrar’ nossas casas diariamente, para ‘ofertar’ seus serviços.
Imagem do bina da minha casa.

Não sei dizer, com precisão, quando começou. Mas, há meses que, praticamente todo dia, recebo ligações interurbanas em minha residência. O ‘bina’ registra o número 1-11-3323-2360 (ver imagem acima), proveniente de São Paulo. É sempre a mesma coisa: uma bela e educada voz feminina pergunta se ‘fulano-de-tal’ está, referindo-se a um de nós, adultos da casa. É o telemarketing do BRADESCO, oferecendo cartões de crédito.
Informada de que já possuímos cartões de crédito e que, há muitos, usamos os serviços bancários do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, a moça agradece e desliga.
A princípio, pensei que isso teria fim. Mas estava errado. Atualmente, mesmo tendo limpado diversas vezes a memória do ‘bina’, o aparelho ainda registra várias ligações provenientes do mesmo número. A maior parte desses telefonemas deu-se em horário comercial. No entanto, depois de certo tempo, passaram a ligar após as dezoito horas. Outras vezes, após as vinte e duas horas. Havendo, ainda, ligações aos sábados e domingos. Em determinadas ocasiões, mais de uma vez no mesmo dia.
Após o primeiro mês, solicitei à moça do telemarketing que retirasse nosso telefone de sua lista de trabalho, pois, com base em nossos direitos, não gostaríamos mais de ser incomodados. Diante de meu pedido, algumas atendentes disseram que anotariam tal solicitação; outras apenas encerraram a ligação de forma educada. Entretanto, a despeito do que tenham dito as gentis senhoritas, a perturbação continuou.
Quero deixar claro que essa postagem não se volta às atendentes do BRADESCO. Essas são pessoas que trabalham arduamente, em nada responsáveis pelo abuso que ora descrevo. A elas afirmo, aqui, meu mais sincero respeito. Minha indignação se volta, exclusivamente, ao departamento de marketing (ou telemarketing) do BRADESCO.
Em seu ímpeto de atingir metas de venda de cartões de crédito, o departamento de marketing do BRADESCO viola nossos direitos; mesmo após ter ficado claro que não queremos mais ser incomodados. Isso porque o BRADESCO não está preocupado com os meus direitos e, menos ainda, com os direitos dos demais membros de minha família.
Ao departamento de marketing do BRADESCO não interessa nosso direito ao descanso; não interessa nosso direito à paz do lar, nos finais de semana; não interessa nosso direito a uma noite de sono tranqüilo, distante dos temas que, em geral, são tratados apenas em horário comercial.
Não vou negar, aqui, a importância dessa instituição bancária, que coloca agências na maioria dos municípios do País, voltando-se, de modo especial, às pessoas de baixa renda. É de meu conhecimento, também, o papel de destaque do BRADESCO na história do financiamento agrícola brasileiro. Contudo, isso não lhe dá o direito de ferir nossos direitos de cidadão e consumidor.
No Brasil, porém, isso acontece porque, aqui, ao invés de um ‘estado de direitos’, tem-se um ‘estado de dinheiro’, onde aos ricos – na forma de pessoas físicas ou jurídicas – é dado o privilégio de quebrar quaisquer regras.
Assim, na certeza da impunidade, o departamento de marketing do BRADESCO cospe nas regras básicas: tanto as ditadas pela Constituição Federal, quanto as estipuladas pelos mais elementares manuais de vendas. Possivelmente, por conta do enorme faturamento, quem estruturou esse plano de marketing dê risadas dos postulados de Phillip Kotler. Afinal, Kotler, gênio do marketing que se declara contrário às técnicas que violam os direitos individuais, escreve para o povo da América do Norte, onde tais direitos ainda são levados mais a sério.
Em ‘terras tupiniquins’, contudo, o departamento de marketing do BRADESCO quer que se danem nossos momentos de descanso e nosso direito à individualidade sem intromissões indesejáveis. Tudo que importa a essa ‘máquina de criar endividamento’ é o alcance das malditas metas financeiras.
Resolvi, então, agir de outra forma. Agora, quando ligam, quem atende ao telefone pede para esperarem ‘um minuto’, alegando ir chamar a pessoa com quem desejam falar; a atendente fica esperando. E pasmem: houve dias em que esperou mais de meia-hora, sem desligar. Ela parece estar munida de moderna central telefônica, de modo que, enquanto espera, segue em seu trabalho.
Compreendo que o BRADESCO tenha o direito de tentar vender seus produtos. Por outro lado, penso que, já na primeira abordagem, deveria também nos ser dado o direito de escolher se gostaríamos, ou não, que nosso número residencial fosse novamente utilizado pelo telemarketing daquela instituição; considerando-se, ainda, que nosso número – o qual sequer consta no catálogo – não foi dado, por nós, ao BRADESCO.
A Constituição Federal, em seu Art. 5º, inciso II, diz: ‘ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;’. Portanto, eu não quero continuar recebendo ligações telefônicas desse serviço de telemarketing. Isso é tão elementar. Então, porque o BRADESCO ignora?
Tudo isso me fez desenvolver, por lógica simples, o seguinte questionamento: se, antes mesmo de sermos clientes dessa instituição bancária, nossos direitos já são feridos; o que ocorrerá com nossa paz familiar, quando, porventura, o BRADESCO vier a ser – aos olhos da lei –, nosso credor?
Pensem nisso!

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JOGOS ELETRÔNICOS GERAM MAIOR VIOLÊNCIA?

JOGOS ELETRÔNICOS GERAM MAIOR VIOLÊNCIA?

– André L. Soares – 06.08.2008 –

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A gentil Sônia Regly, do ‘Compartilhando Letras’, escreveu um belo ‘post’ acerca da possível influência negativa que os ‘games’ exerçam sobre as crianças, aumentando-lhes a tendência a serem violentas. Porém, embora respeitando opinião contrária, não creio que haja relação entre a violência infanto-juvenil e jogos para computadores.
Penso que, quando se fala em violência infanto-juvenil é preciso entender que essa é basicamente ‘masculina’. E, nesse sentido, sempre houve. Qualquer homem que tenha vivido a infância antes dos anos 80 sabe que isso é verdade. Presenciei e participei de muita briga durante brincadeiras que, a princípio, pareciam inocentes.
Como bem dizem os psicólogos, jovens precisam se afirmar, encontrar suas ‘tribos’, definir territórios, chamar a atenção sobre si, contestar ‘verdades’ das gerações anteriores. Os homens não fazem isso de modo muito diferente dos lobos. Nós nos enfrentamos. Testamos limites e somos testados. Infelizmente, é assim que o jovem consegue sua primeira dose de respeito.
Entre nós – os machos –, a docilidade das brincadeiras acaba muito cedo. E isso não mudou. As educadoras dos jardins de infância – de hoje ou de ontem –, sabem que não podem descuidar, ou os garotos se machucam uns aos outros. Isso quando não machucam também as meninas.
O fato é que, mesmo agora, os jogos são, em essência, voltados a meninos. Sua finalidade é prepará-los para a competitividade no mundo capitalista-machista. E isso tem sido assim, mesmo antes dos telejogos. Sejam com bolas de gude, futebol, ‘War’ ou ‘GTA’, o estímulo à violência deriva do estímulo à competitividade. De modo velado, os jogos são um treinamento para a vida adulta. Provavelmente, Shakespeare diria hoje que, ‘em uma partida de ‘futebol de rua’, há muito mais coisas em jogo do que pode supor nossa vã filosofia’.
A diferença básica entre o ‘ontem’ e o ‘agora’ está em que, há algumas décadas, havia, em casa, mais mães, tias e avós, vigiando as crianças. Isso, até certo ponto, impedia que os embates entre os jovens chegassem ao extremo.
Digo ‘até certo ponto’ porque, raro é o homem que não vivenciou, na adolescência – sem que os pais soubessem –, brigas durante atividades consideradas ‘inofensivas’, como soltar pipas, por exemplo. Mesmo jogos de mesa e tabuleiro, entendidos como ‘pacíficos’, geravam discussões que, muitas vezes, terminavam em pancada, ou, no mínimo, em imensurável zombaria.
E por que isso? Porque, no caráter lúdico da competitividade, aprendia-se cedo a respeitar vencedores e a hostilizar perdedores. Ao se aclamar ou depreciar uns e outros, muitos reagiam e, assim, formava-se a confusão. Havia quem não aceitasse a derrota, tentando burlar as regras (o que, no âmbito adulto, equivale ao crime). O sucesso da fraude dependeria, quase sempre, da força física do fraudador.
Para entender melhor os aspectos sociológicos dos jogos e brincadeiras infanto-juvenis, uma boa opção é assistir filmes como ‘Leolo’ (1992, dir.: Jean-Claude Lauzón) e ‘A Guerra dos Botões’ (1962, dir.: Yves Robert).
Então, sabendo-se que a violência vai estar presente em qualquer jogo, a questão principal é identificar em qual contexto a criança estará exposta a riscos mais sérios.
Na minha infância – e lá se vão mais de vinte anos – tudo era decidido ‘na mão limpa’ ou ‘no braço’ (como se falava à época). Às vezes um garoto pegava paus e pedras. Mas isso, naquele tempo, era admitir fraqueza e, embora seu oponente corresse, quem se armasse desses recursos tornava-se um fraco frente os demais.
Muitas vezes, os pais nem ficavam sabendo das brigas porque, naquela época, também era considerado sinal de fraqueza contar pra ‘pai’ e ‘mãe’ o que acontecia na rua. Além disso, havia pai que, se soubesse que o filho apanhou na rua, acabava por aplicar-lhe outra surra ainda maior em casa.
Hoje é diferente. As ruas oferecem grande perigo. A violência direta entre crianças e adolescentes recebeu o adendo das armas. Qualquer desentendimento resulta em morte. O nível de tolerância é outro: toda voz mais alta é desrespeito imperdoável. Então, para a segurança das crianças, melhor que o contexto de violência seja virtual, diante da televisão e em parceria com ‘playstations’ e ‘nintendos’.
Os fabricantes de jogos eletrônicos não inventam a violência. Apenas seguem as tendências do mercado de entretenimento, em conjunto com o cinema e a televisão. A violência nos filmes assumiu configuração bem mais significativa nos últimos quinze anos. Os videogames acompanham essa linha. Senão não vendem. Paralelo a isso, tem-se, em casa, a menor presença dos pais junto aos filhos.
A combinação desses fatores leva a um contexto que, erroneamente, faz parecer que as crianças de hoje sejam mais violentas que as de ‘ontem’. Elas apenas estão menos vigiadas e sofrem maior apelo capitalista. Daí um jogo onde ganha quem roubar mais carros ser mais popular que outro, cujo objetivo seja construir cidades perfeitas. Afinal, ninguém conhece cidades perfeitas. Mas todos sabem o que é roubo de carro.
Vale dizer ainda que, talvez – e somente ‘talvez’ –, parte da diferença esteja na ‘queima de energia’: quando, há algumas décadas, as brincadeiras eram essencialmente físicas, o comum excesso de energia das crianças e adolescentes era gasto no decorrer das atividades. É possível que os videogames, por exigirem menor esforço físico, não funcionem como ‘válvulas de escape’ satisfatórias à enorme energia dos jovens.
Há que se considerar também que, nos jogos eletrônicos, a maior incidência de movimentos repetitivos, aliada ao excesso de luzes e sons, possa, de alguma maneira, afetar o ‘estado de nervos’ dos usuários, provocando surtos de irritação. Mas não creio que isso seja suficiente para se afirmar que tal entretenimento eleve os níveis de violência.
De forma incontestável, a violência é fator presente em toda a história humana e, com raras exceções, é exclusivamente masculina. Em âmbito maior, a violência que hoje se vê, configurada nas guerras, na má distribuição da renda, na corrupção estatal, na exclusão social que redunda na guerrilha urbana etc., ainda é essencialmente ‘orquestrada’ por homens que, na infância, não tiveram videogames.
Tentar atribuir aos jogos eletrônicos as novas tendências da violência infanto-juvenil, é negar o óbvio: a violência persiste e se eleva, como evolução natural do contexto de injustiça, exclusão e crescente abandono que, hoje, as novas gerações recebem de nós – atuais adultos.
Há que se supor, também, que hoje a violência dos jovens decorra, em parte, da nossa ‘violência-passiva’ – essa que deixamos por herança –, quando adotamos a postura covarde que permitiu a morte das ideologias humanitárias que se revigoravam nos anos 60 e 70, em prol de um neoliberalismo individualista e competitivo ao extremo, que prometia maior poder de consumo – aos vencedores.
De certo modo, o novo contexto socioeconômico afetou duramente a estrutura da instituição familiar: cada vez deixam-se mais crianças aos cuidados de estranhos, quando não sozinhas; cada vez mais, reforça-se o modelo individualista de viver. Tudo isso tem um preço, a ser pago independente de haver, ou não, videogames.
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QUEM NÃO ABUSA DO PODER NO EXERCÍCIO DA FUNÇÃO?

[Hell Detail of a Demon Hitting the Damned - Dieric Boubts]

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QUEM NÃO ABUSA DO PODER NO EXERCÍCIO DA FUNÇÃO?

André L. Soares – 22.07.2008 –

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Quase como regra, quando o tema é ‘abuso de poder no exercício da função’, as críticas mais árduas recaem sobre a polícia, os políticos, e, claro, o Poder Judiciário; provavelmente por serem esses os expoentes de tal disfunção. Mas será que são os únicos?
Tenho me perguntado: há quem não abuse do poder? Será o ‘não-abuso’ tão-somente resultado da falta de oportunidade? Ser ‘cidadão de bem’ é condição que ninguém quer, mas que, infelizmente, a maioria de nós aceita como um ‘infortúnio’?
Não faz muito tempo, uma amiga, que ainda hoje trabalha como auxiliar de enfermagem em hospital público do Distrito Federal, contou-me, entre gargalhadas, algumas das muitas coisas que ocorriam nessas instituições de saúde, quando os funcionários entendiam que determinado paciente não ‘merecia’ ser bem atendido.
Em suas narrativas, ela detalhava a forma como eram tratados, quase sempre na madrugada, os bêbados que eram levados à ‘emergência’ do hospital para receberem soro; os homossexuais, que procuravam socorro médico quando frascos de ‘tred-marchant’, pepinos e afins ficavam entalados no reto; adolescentes com overdose; suicidas, entre outros.
Na explicação da minha amiga, essas pessoas atrapalhavam o bom andamento dos serviços hospitalares, consumindo tempo, recursos e esforços que, segunda ela, poderiam e deveriam ser direcionados a outros pacientes. Com base nessa idéia – e obviamente achando-se ‘justos’ –, os funcionários ‘puniam’ àqueles que considerassem não-merecedores do bom atendimento, por meio de pequenas práticas de ‘crueldade’.
Entre as punições, duas se faziam mais freqüentes: deixar os ‘gays’ aguardando por até quarenta e oito horas, antes que algum cristão resolva livrá-los dos incômodos do ‘tred-marchant’; e, aplicar soro nas vítimas de alcoolismo, utilizando agulhas bem mais grossas que o necessário, de modo que, no outro dia, o infeliz sinta muita dor.
Mas no que se configura, afinal, esse comportamento dos profissionais de saúde? Em crime! Na verdade, em vários crimes, onde os mais leves deles talvez sejam ‘abuso de poder no exercício da função’ e ‘discriminação’, podendo, a isso tudo, juntar-se ainda o hediondo crime de ‘tortura’.
Ao agirem assim, esses funcionários estão desenvolvendo, de modo arbitrário (já que suas funções não lhes habilitam para isso), três fases distintas de um processo criminal: julgamento, condenação e aplicação da pena. Tudo isso, sem que o suposto ‘réu’ tenha o sagrado e constitucional direito à defesa, direito esse garantido até aos mais bárbaros facínoras.
Cabe ressaltar, também, que o paciente não é ‘réu’. Independente das noções de valor que possam ter os funcionários da instituição de saúde, e, do mesmo modo, independente do que tenham feito as pessoas que para lá são levadas, o paciente não é ‘réu’. É um doente.
A lei, por sua face humanitária, criada, em tese, para defender os menos afortunados e garantir o contexto igualitário mínimo que possa evitar que a sociedade mergulhe no caos, impõe sempre tratamento especial aos enfermos de quaisquer espécies. Nessas ‘espécies’, a lei entende o alcoolismo como ‘doença’. Daí porque, por exemplo, no ordenamento pátrio, a lei trabalhista não permite a demissão por justa causa de empregados alcoólatras.
A despeito da crueldade contida nessas ‘punições’, há que se registrar a crueldade maior configurada no ato de atender mal a um cidadão, justo quando esse se encontra em um de seus momentos mais difíceis. Ainda mais, quando se sabe que esse cidadão pagou – direta e indiretamente – impostos de onde saem os salários daqueles mesmos funcionários que se arvoram em discriminá-lo, julgá-lo, condená-lo e puni-lo, com tortura.
Abismado com as narrativas, passei então a perguntar sutilmente sobre o tema a amigos e parentes que também trabalhassem na área médica. A constatação a que cheguei – empiricamente – é a de que, de modo paulatino e com aval corporativista, essa prática vem se tornando uma ‘cultura’ nesse setor, com incidência mais acentuada nas instituições públicas.
O ‘abuso de poder no exercício da função’ é exatamente isso: valer-se do cargo para agigantar-se arbitrariamente contra os mais fracos – geralmente quando estão no ‘fundo do poço’ –, caçando-lhes direitos, imputando-lhes penas, causando-lhes prejuízos variados. Acaso não é isso que faz da polícia uma das instituições mais repudiadas do País? Como se pode, então, criticar a ação policial e, ao mesmo tempo, permitir que se estabeleça essa sombra tão cruel no interior das instituições hospitalares? Certamente que Hipócrates ficaria muito triste ao ver que, entre os profissionais da saúde, há quem queira desempenhar os papéis sociais de juiz, júri e carrasco.
É terrível imaginar que, talvez, a diferença entre nós e Josef Mengele seja apenas a falta de oportunidade!

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INVISTA EM VOCÊ: TRABALHE DE GRAÇA

CSA Coal Mine at Karvina. Fotógrafo - James P. Blair.
[Fotografia: James P. Blair]
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INVISTA EM VOCÊ: TRABALHE DE GRAÇA

- André L. Soares - 21.05.2008 -

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Desde que não pare de estudar, quase todo esforço é válido ao jovem que busca o primeiro emprego. Inclusive, trabalhar de graça. Explico:
De 1989 a 2004, fase de grande inflação e desemprego, fui dono de ‘birô’ pequeno escritório de consultoria em Brasília. De fácil gerenciamento, tinha computador, impressora, telefone e uma mosca-morta secretária. De resto, só minha habilidade para vender e prestar o serviço.
O serviço era anunciado no jornal. Os clientes ligavam. A secretaria dizia ‘alô’ fazia o primeiro atendimento e me passava o telefone. Eu vendia o serviço que, dias depois, iria desenvolver.
De família imensa e com muitos amigos, havia sempre um chato alguém pedindo emprego ou estágio para o filho. Não adiantava explicar minha quebradeira limitação. Bastava ir a um churrasco e me sondavam sobre empregar gente que eu sequer conhecia.
Tornei-me hábil em dizer ‘não’ com frieza elegância. Porém, a estratégia logo mudou: passaram a abordar minha mãe que, por sua vez, torrava meu saco intervinha pelos solicitantes.
Em Brasília, mais que em outro lugar, quando pensam em empresas, as pessoas imaginam que essas sejam ‘cabides de emprego’, tais eram os órgãos inúteis e toscos inoperantes da ditadura militar.
Assim, os pedidos se faziam com mais freqüência. Até minhas namoradas se ofereciam para trabalhar comigo. Temendo virar o monstro insensível, passei a mentir alegar que as coisas iam muito mal e que sequer poderia pagar a merreca o salário mínimo.
Na verdade, eu estava fascinado pelas ‘vias paralelas’ que levavam ao lucro: redução de custos, prestação de serviços sem nota fiscal e afins. Daí não precisar, nem querer, aumentar a curtíssima folha de pagamento.
Mas os pedidos seguiam. Embora pobres, vivendo com dificuldade, uns propunham que o filho trabalhasse de graça. Outros queriam, ainda, custear o transporte e o almoço do menor. Foi aí que, puto da vida constrangido, cedi. Aceitei o filho de um amigo como estagiário não remunerado, por meio período (no outro ele estudava), arcando apenas com custos de transporte e almoço.
O rapaz tinha quinze anos. Jeca Tímido. Mal sabia pegar ônibus. Falava em tom inaudível. Nunca olhava nos olhos. Jamais emitia opiniões. Tinha medo de tocar em tudo. Não levantava da cadeira (nem pra mijar cuspir). Parecia um bicho-do-mato caipira. Era difícil crer que aquele mané menino ‘peitava’ o pai em casa, fazendo arruaça junto com os amigos e fumando tendendo a fumar maconha.
Nessa época o escritório já possuía bom volume de equipamentos de informática. Não demoraram seis meses e o rapaz tornou-se hábil no uso do computador; perdeu a timidez; atendia ao telefone com segurança; sorria para os clientes; fazia serviços de banco; e até emitia pequenas sugestões sobre os serviços que prestávamos.
Certo dia, um cliente liga desesperado. Era advogado. Um de seus funcionários passara em concurso e se demitira. Então, precisava de alguém para fazer serviço de escritório. Queria saber se eu podia indicar alguém. Não por nepotismo, indiquei meu estagiário que, de fato, demonstrara competência.
Feliz, ele foi ganhar dois salários mínimos. Passou a estudar à noite. Poucos meses nesse emprego e foi prestar serviços numa antiga estatal. Após escândalo que devastou tal organização, abriu negócio próprio. Formou-se em processamento de dados e ficou louco casou.
Depois dessa primeira experiência bem-sucedida os pedidos se multiplicaram. De minha parte, entendi a vantagem de ter estagiário não-remunerado e aceitei outro, tão logo o primeiro saiu.
Tudo se repetiu! Ao todo, nesses quinze anos, tive, como estagiários: dois filhos de amigos, dois primos, uma prima, a esposa de um primo e três namoradas. Uma delas, especificamente, indiquei várias vezes. Primeiro para ser secretária na maior rede de farmácias de manipulação do Centro-Oeste (onde trabalhou por dois anos); depois, para a gerência na maior clínica odontológica de Brasília (onde permaneceu um ano); terceiro, para secretariar grande escritório de ricos ‘lobistas’ locais; e, por fim, para assessorar ninguém menos que Idalberto Chiavenato, no ano de 2001, em sua turnê de palestras pelo país (quem conhece Administração sabe a quem me refiro).
Essa antiga namorada sabia a importância de estar no mercado a todo custo. Por isso, cada vez que perdia o emprego, oferecia-se novamente para trabalhar pra mim, de graça; pois tinha certeza que dessa opção viria o novo emprego. Ela nunca errou.
Em todos esses casos a transformação foi sublime e os resultados positivos inegáveis. Jamais sofri reclamações informais ou processos trabalhistas. Nenhum deles sentiu-se explorado e até hoje recebo agradecimentos. Os empregadores a quem os indiquei também me são gratos e, sempre que nos encontramos, perguntam por eles.
Cabe ressaltar que, sem exceção, dos estagiários do sexo masculino, todos, antes do estágio, estavam começando a preocupar a família. No entanto, nunca me deram qualquer problema e, finda a experiência em meu escritório, também não soube que tenham gerado novas dores de cabeça aos pais.
Por uma carga horária que variava de 4 a 6 horas diárias, esses estagiários não-remunerados aprenderam o que a escola jamais ensina; o que não está nos livros; aquilo que poucos sabem e que quase ninguém se dispõe a repassar.
Não lhes foi dado dinheiro. Mas ganharam, na juventude, a primeira oportunidade da experiência: refinar-se; nutrir o comportamento formal, desprovido da timidez que atrapalha; adquirir confiança; ter o vocabulário multiplicado; absorver a malícia laboral; tornar-se íntimo das máquinas, do procedimento técnico, da rotina escritural, do jogo de palavras propício às vendas; adaptar-se à disciplina do horário; saber o valor do contrato e do compromisso empenhado.
De minha parte, não facilitei. Tratei-os com o rigor respeito cabível à relação de trabalho. Não tolerei atraso. Exigi que estudassem. Cobrei linguagem, postura e empenho apropriados. Incentivei o pensamento próprio e vez por outra a ação espontânea responsável.
Dito isso, entendo que, por um preço nem tão alto, ‘furaram a fila’ do desemprego, apenas dando algo ao mercado, antes de exigirem alguma coisa. Tiveram a adolescência ‘encurtada’? Sim. Mas, a julgar pelo que as ruas ofereciam, não foi ruim.
Então, se você não está passando fome, mas ainda pertence ao vasto nicho dos infelizes que buscam – sem sucesso – o primeiro emprego, sugiro que passe a pão e água adie seus sonhos de consumo por alguns meses (talvez um ano). Trabalhe de graça. Não se arrependerá!
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BEM-VINDOS AO ‘DOCE DE FEL’!…

…onde se pretende, quase sempre, servir palavras amargas e pensamentos cruéis; não por puro pessimismo ou quaisquer vícios sádicos, mas sim por uma questão de pura honestidade.

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(dúvida: ‘pura honestidade’… é pleonasmo?!).
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